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Antigo Relógio
2o. Capítulo
Sentia minhas mãos frias, levemente suadas, podia ouvir o bater
compassado do meu coração: "tum,tum,...tum,tum". Não conseguia
perceber que o meu corpo estivesse diferente naquele momento. Ainda
estava um tanto perturbado com tudo aquilo, foi uma experiência
abrupta, um acontecimento pelo qual não optei em sentir.
Naquele momento, observei a grande janela. Era como se eu
estivesse menor fisicamente: porém, tinha plena consciência
da minha presença corporal como era antes. Era como se nada
tivesse mudado comigo.
Estava só. À minha volta, um grande espaço escuro, os
detalhes dos componentes eletrônicos complexos, um
emaranhado de fios, cabos, placas com caminhos desenhados
com pequenas soldas. Tudo isso para mim, visto aqui de
dentro, parecia-me em tamanho real, como se eu estivesse em
um cenário de filme numa cidade eletrônica.
Na minha frente, um grande vidro blindado, pelo qual não
podia passar, mas via tudo o que acontecia do lado de lá:
era o meu mundo, a minha vida, a minha história, o que eu
tinha de mais real. Meus amigos, meu trabalho, meus objetos
lá estão, postos sobre a minha mesa. A prateleira, os
livros, as fotos. Tudo ainda estava lá, imóvel.
Passei horas e horas, diante desta máquina, entregando toda
a liberdade de viver muitas coisas e muitos momentos,
deixando de conhecer e vivenciar a energia da vida, sem
perceber que o tempo transcorria a cada passo.
Fiquei a pensar naquele momento, pelo lado inverso daquela
que era a grande janela para a minha vida que se foi. Via o
meu corpo ali, aguardando que alguém o recolhesse,
caído sobre o teclado da máquina. Prostrado, sem vida,
inerte.
Estava impressionado. Como poderia estar vendo a minha sala?
Tudo terminara ali, do outro lado do vidro? Não conseguia
ainda colocar meus pensamentos em ordem, sentia-me só!
Ao mesmo tempo, do lado de cá, passavam todas as vibrações
da vida, pulsando em meu corpo, que juro ser o mesmo que
estava ali morto! Minha mente, meu pensamento eram os
mesmos, apenas via o meu corpo fora de mim, debruçado.
Não posso explicar para mim mesmo, o que aconteceu. Como vim parar
aqui? Dentro deste monitor do meu próprio computador, como se fosse
enorme, amplo e ainda ver, do outro lado desta imensa janela
iluminada a sala que foi um dia a minha morada?
Horas e horas passei ali, do outro lado, trabalhando,
conversando com pessoas que nunca conheci. Eram apenas
nomes, códigos, nicknames, números! Era mais que um vício,
era uma obsessão. Muitas horas se passaram, eu não percebia.
O mundo lá fora não mais me interessara, pois estava
absolvido completamente por esta máquina.
Como pode? O que realmente aconteceu comigo? É como se eu tivesse
sido colocado para fora de um jogo. Neste momento assisto aos
acontecimentos do outro lado, tal qual um espectador da minha
própria vida. Estou aqui, vendo tudo o que era real para
mim...deixei a vida passar, enquanto perdia a vida verdadeira num
comportamento compulsivo, entregando-me completamente para
esta máquina. Ali ficou o meu corpo, a minha vida. Do outro lado.

Não sabia ao certo o que
fazer, apenas observava o que pudesse acontecer do outro
lado da janela, fiquei aqui nesta imensidão escura, com
equipamentos de certa forma inertes, sem vida, esperando que
algo acontecesse.
Quem sabe alguém surgisse, pois ali estava o meu corpo
estático aguardando o tempo.
Anos passaram-se voando e eu nem percebi. Estava ali do
outro lado, teclando, conversando, num mundo fictício criado
por mim e por muitas outras pessoas, sem calor humano, sem
contato, frios, longe, eternamente desconhecidos. Sr. Código
tal, fulana tracinho número tal, cicrano incógnita, beltrano
de algum lugar, onde estavam todas essas pessoas? Não as
via, não as sentia, não estavam do lado de lá, apenas o meu
corpo pálido e solitário, completamente só!
Vivo agora neste ambiente cibernético, hermético, fechado,
como vivia realmente por muitos anos e não me apercebia. Eu
já estava nesta maquina por todo o tempo, vivia para este
equipamento, meus amigos estavam aqui dentro, acreditava
assim que fosse.
Naquele momento via lá do outro lado desta janela, o meu corpo só e
aqui dentro ninguém, não havia nada aqui, apenas componentes, fios,
cabos, caminhos metálicos, não sabia ao certo o que fazer por aqui!
Era tudo ilusão, apenas estava sempre só!
Sentia-me vivo como era antes, nada mudara, acredite, em
corpo e alma, mas como poderia ver o meu corpo ali entregue
a própria sorte?
Ainda estou atônito, confuso, mas posso pensar muito bem e
rever tudo o que se passou, o espaço aqui é grande, a janela
é imensa, com um clarão brilhante e azulado, vejo esta luz
iluminando a minha sala, que lá está do outro lado do vidro,
do meu monitor, estou aqui dentro da minha máquina, desta
feita observando o mundo lá fora, o mundo pelo qual virei as
costas, o abandonei para viver uma falsa realidade.
Será que sou agora um espírito?
Nunca havia pensado que após a vida, continuaria sentindo o
pulsar do meu coração, vejo o meu corpo como era antes,
mas era incrível estar aqui me sentindo vivo e ao mesmo
tempo me vendo do outro lado , deitado sobre aquele teclado,
que tanto usei, que tanto tempo me absorveu, enquanto dava
as costas ao mundo real.
Onde estavam as pessoas, os amigos, meus vizinhos? Pessoas
que passaram pela minha calçada, pela janela da minha sala,
e eu, de costas, caído sobre este teclado, deixei a vida
esvaziar por si só.
Agora vejo tudo o que deixei de viver, deixei de sentir,
pois estava aqui mesmo debruçado, desperdiçando a vida real,
por uma vida virtual, fria, sem calor.

Daqui posso ver o meu antigo relógio na parede, redondo, com os
ponteiros delicadamente desenhados, como se fossem setas apontando o
passar do tempo a cada segundo, pulsando, num batimento rítmico tal
qual uma pequena bomba cardíaca da vida.
Uma fina moldura dourada delimitava o fundo
branco, contrastado pelos números de 1 a 12, romanos, polarizados
pelo eixo que girava, delicadamente, avisando aos incautos que o
tempo esgota-se a cada segundo, sem
parar.
No relógio, 6:00 horas da manhã. Os ponteiros
estavam alinhados, apontando o norte e o sul. Via nas frestas da
minha janela os raios de sol que penetravam, mostrando o dançar
constantes das pequenas partículas de poeiras no ar. Ali, sim, um
movimento: as partículas refletiam a luz do sol e brilhavam como
estrelas em seu universo próprio, rodopiando como pirilampos que
saudavam a chegada de um novo dia.
O tempo avançara, nada acontecera com o meu
corpo imóvel, o sol estava mais forte, os raios invadiam a minha
sala, os pirilampos ficaram mais iluminados. Os reflexos de raios de
luz no vidro do meu antigo relógio, batiam e reluziam no filete
dourado que emoldurava o fundo branco, onde giravam os ponteiros
pontiagudos.
Às 7:30 horas da manhã, o silêncio era
profundo, nada poderia ouvir na rua. Nem o movimento, ou o frear dos
carros naquela lombada que ficava bem em frente à minha janela.
Apenas o ruído da máquina, daquele som giratório constante. Só o
silêncio do outro lado do vidro, desta janela pelo qual observava o
lado de lá, onde passei toda a minha vida!
De repente, percebi algum movimento na porta!
Havia alguém do outro lado na espreita! Uma mão batia como se
quisesse me chamar! Acordar-me talvez! Insiste! Bate! Era a Pat a
minha empregada, não ouvia nada daqui, mas sentia que ela,
em voz alta, chamara pelo meu nome!
Por um instante, Pat arregalou os olhos,
adentrou a sala, chamou-me, tocou em meu ombro naquele corpo mórbido
e frio e, ao perceber a realidade, espantou-se, entregando-se ao
choro desesperado!
-Pat! Pat! Eu estou aqui, veja! Aqui! Dentro
do monitor! Pat! Pat! - gritei com todas as minhas forças, socando o
vidro com os punhos serrados!
Pat não demonstrara nenhuma reação. Não me
ouvira. Desesperada saíra correndo da sala, coitada da Pat! Em
completa tristeza, aos prantos, batendo a porta. Que pena!...
Tanto serviu-me, quantos vezes veio até aquela sala trazer meu café
e perguntar-me se precisava de alguma coisa!
E, novamente, fiquei aqui, esperei, senti-me
vivo, podia pensar, ver, enxergava tudo através da janela de vidro.
Deste lado estava sozinho, as pessoas não me percebiam, o que seria
do meu futuro a partir daquele momento? Tinha todo o tempo dentro
desta máquina para descobrir! Quando iriam voltar?
Segue no 3º Capítulo...
Direito Autoral e
Domínio Reservado Lei: 9.279
DE 14 DE MAIO DE 1996 - Proibida a
reprodução ou publicação.
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