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Mundo Estranho

Acordei ao meio da noite, tudo estava escuro à minha volta, olhei para os lados e parecia não reconhecer o ambiente; caminhei procurando enxergar alguma coisa familiar.

Estava ansioso por entender a situação, confuso com tanta escuridão.
Tateava com os braços estendidos e com as palmas da mãos, como se estivesse me protegendo, com os dedos totalmente abertos.

Um pouco de claridade de repente se apresentava, mas não era ainda suficiente para que eu identificasse aquele ambiente.

Mesmo assim, mais aliviado, continuei a caminhar e buscar uma saída, ou mesmo, um local que pudesse reconhecer.

Apenas ouvia um ruído de máquina, contínuo, giratório, mas não sabia de onde vinha, era um som de algo mecânico, um motor ou um ventilador, não conseguia relacionar coisa alguma, pois me sentia muito atordoado com o que estava acontecendo.
Tenho que confessar que tive medo, medo de não ter reconhecido nada; minhas mãos suavam, meu coração palpitava intensamente, passei alguns calafrios enquanto caminhava.
Um certo desespero tomava conta de mim. 
Comecei a visualizar algo que me parecia ser ruas, caminhos, um piso metálico com vários furos irregulares, como se fossem grades, ou grelhas. Percebia que pisava sobre uma superfície sólida, talvez metálica, não sabia ao certo. Estava ainda muito escuro.
Mesmo assim continuei caminhando. Tive a impressão de estar num galpão de uma velha fábrica, quando toquei em alguns cabos e fios.
Agora, cada vez mais, percebia que eu não poderia ter acordado de um sonho, pois, aos poucos, ouvia um som de motor ou coisa parecida. Com grande dificuldade começava a enxergar e apalpava tudo à minha volta.
Lembro-me de ter experimentado uma sensação de conforto e esperança, em meio à tanta confusão e escuridão.
Aquele som poderia apontar-me um caminho, se não fosse um ruído oco, parecendo mais um eco e se difundia pelo ambiente. Preferi a luz!
Continuei caminhando, buscando uma saída naquele ambiente desconhecido. Uma claridade, lá ao longe, me fez suspirar de alegria, aumentei os meus passos com mais segurança. Era um caminho e uma direção a seguir. Que alívio! Apressei-me.
-Deve ter alguma coisa lá! - murmurei.
Andando mais depressa e confiante, conseguia ver cada vez mais naquela escuridão: quem sabe um galpão de uma fábrica ou mesmo um grande depósito?
Aos tropeços, cai várias vezes sobre equipamentos, peças que não reconhecia, mas tamanha era a minha inquietude e esperança em encontrar uma saída que, com passos largos, me dirigia em direção à claridade!
Após alguns momentos que nem sei precisar, pois diante de tanto espanto e medo, não podia contar o tempo, apenas queria sair dali, aquela claridade começou a aumentar e também a minha esperança! Em meios a cabos, peças e a um piso que me parecia disforme, como se fosse uma grande grade, aumentei as minhas passadas com certa confiança!
-Meu Deus! - Pensei comigo mesmo! -A luz!
Naquele momento tudo me pareceu mais objetivo. Via, encorajado, aquela luz que tanto persegui. Era a minha única saída, não poderia ter feito e nem desejado outra coisa, senão buscar aquela claridade bendita!
-Será uma janela? Me parece um grande vidro! -falei comigo mesmo, atônito!
A claridade era estonteante! Cada vez mais claro, minha vista estava embaraçada, pois eu havia estado em absoluta escuridão. Eu precisava de um tempo para me acostumar... precisei pôr as mãos diante dos olhos para tentar entender o que eu tinha em frente!
Dei mais alguns passos e diante de tanta claridade, com meus olhos já costumados, reconheci realmente algo familiar: era uma grande janela de vidro, com uma intensa luz do outro lado.
Com as mãos, apoiei-me naquele vidro hermeticamente fechado, procurando ver o que poderia existir além.
Encostei àquela janela a ponto da minha respiração embaçar o vidro transparente com luz tão almejada por mim; procurei afastar-me um pouco para não perder a visibilidade naquele momento e finalmente encontrei algo para ver.
Ao invés de tranqüilidade e calma, meu coração começou a palpitar mais ainda, uma sensação de espanto tomou conta de mim, minhas mãos suavam cada vez mais. Eu estava reconhecendo aquele ambiente e tudo o que havia do outro lado daquela imensa janela.
Uma mistura de medo e ao mesmo tempo de alívio, era como se eu estivesse encontrado o que tanto procurava.
Através daquela janela, pude ver, com clareza: era a minha sala, os meus objetos! Pasmo, reconheci aquele corpo sobre a mesa, debruçado sobre o teclado de um computador. Algo deveria ter acontecido, pois aquele corpo era o meu! Eu estava diante do meu próprio corpo morto, sem vida, na minha sala, diante daquela janela.
-Agora compreendo tudo! - resmunguei em voz baixa para mim mesmo!
A grande janela era o monitor do meu computador, meu espírito estava preso àquela máquina, e eu observava o corpo estendido do lado de fora, naquele mundo estranho que já não mais me pertencia!

Um sentimento de perda e ao mesmo tempo de desamparo tomara conta de mim. Fiquei profundamente abalado com aquela cena irremediável!
Estava só, tentando pôr os pensamentos em ordem. Aguardei ansioso e desesperado que algo acontecesse a partir daquele momento terrível!