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Antigo Relógio


Sentia minhas mãos frias, levemente suadas, podia ouvir o bater compassado do meu coração: "tum,tum,...tum,tum". Não conseguia perceber que o meu corpo estivesse diferente naquele momento. Ainda estava um tanto perturbado com tudo aquilo, foi uma experiência abrupta, um acontecimento pelo qual não optei em sentir.

Naquele momento, observei a grande janela. Era como se eu estivesse menor fisicamente: porém, tinha plena consciência da minha presença corporal como era antes. Era como se nada tivesse mudado comigo.

Estava só. À minha volta, um grande espaço escuro, os detalhes dos componentes eletrônicos complexos, um emaranhado de fios, cabos, placas com caminhos desenhados com pequenas soldas.


Tudo isso para mim, visto aqui de dentro, parecia-me em tamanho real, como se eu estivesse em um cenário de filme numa cidade eletrônica.


Na minha frente, um grande vidro blindado, pelo qual não podia passar, mas via tudo o que acontecia do lado de lá: era o meu mundo, a minha vida, a minha história, o que eu tinha de mais real. Meus amigos, meu trabalho, meus objetos lá estão, postos sobre a minha mesa. A prateleira, os livros, as fotos. Tudo ainda estava lá, imóvel.

Passei horas e horas, diante desta máquina, entregando toda a liberdade de viver muitas coisas e muitos momentos, deixando de conhecer e vivenciar a energia da vida, sem perceber que o tempo transcorria a cada passo.
Fiquei a pensar naquele momento, pelo lado inverso daquela que era a grande janela para a minha vida que se foi. Via o meu corpo ali, aguardando que alguém o recolhesse, caído sobre o teclado da máquina. Prostrado, sem vida, inerte.
Estava impressionado. Como poderia estar vendo a minha sala? Tudo terminara ali, do outro lado do vidro? Não conseguia ainda colocar meus pensamentos em ordem, sentia-me só! 
Ao mesmo tempo, do lado de cá, passavam todas as vibrações da vida, pulsando em meu corpo, que juro ser o mesmo que estava ali morto! Minha mente, meu pensamento eram os mesmos, apenas via o meu corpo fora de mim, debruçado.
Não posso explicar para mim mesmo, o que aconteceu. Como vim parar aqui? Dentro deste monitor do meu próprio computador, como se fosse enorme, amplo e ainda ver, do outro lado desta imensa janela iluminada a sala que foi um dia a minha morada?
Horas e horas passei ali, do outro lado, trabalhando, conversando com pessoas que nunca conheci. Eram apenas nomes, códigos, nicknames, números! Era mais que um vício, era uma obsessão. Muitas horas se passaram, eu não percebia. O mundo lá fora não mais me interessara, pois estava absolvido completamente por esta máquina.

Como pode? O que realmente aconteceu comigo? É como se eu tivesse sido colocado para fora de um jogo.

Neste momento assisto aos acontecimentos do outro lado, tal qual um espectador da minha própria vida. Estou aqui, vendo tudo o que era real para mim...deixei a vida passar, enquanto perdia a vida verdadeira num comportamento compulsivo, entregando-me completamente para esta máquina.

Ali ficou o meu corpo, a minha vida. Do outro lado.

Não sabia ao certo o que fazer, apenas observava o que pudesse acontecer do outro lado da janela, fiquei aqui nesta imensidão escura, com equipamentos de certa forma inertes, sem vida, esperando que algo acontecesse.
Quem sabe alguém surgisse, pois ali estava o meu corpo estático aguardando o tempo.
Anos passaram-se voando e eu nem percebi. Estava ali do outro lado, teclando, conversando, num mundo fictício criado por mim e por muitas outras pessoas, sem calor humano, sem contato, frios, longe, eternamente desconhecidos. Sr. Código tal, fulana tracinho número tal, cicrano incógnita, beltrano de algum lugar, onde estavam todas essas pessoas? Não as via, não as sentia, não estavam do lado de lá, apenas o meu corpo pálido e solitário, completamente só!
Vivo agora neste ambiente cibernético, hermético, fechado, como vivia realmente por muitos anos e não me apercebia. Eu já estava nesta maquina por todo o tempo, vivia para este equipamento, meus amigos estavam aqui dentro, acreditava assim que fosse.
Naquele momento via lá do outro lado desta janela, o meu corpo só e aqui dentro ninguém, não havia nada aqui, apenas componentes, fios, cabos, caminhos metálicos, não sabia ao certo o que fazer por aqui!
Era tudo ilusão, apenas estava sempre só!
Sentia-me vivo como era antes, nada mudara, acredite, em corpo e alma, mas como poderia ver o meu corpo ali entregue a própria sorte?
Ainda estou atônito, confuso, mas posso pensar muito bem e rever tudo o que se passou, o espaço aqui é grande, a janela é imensa, com um clarão brilhante e azulado, vejo esta luz iluminando a minha sala, que lá está do outro lado do vidro, do meu monitor, estou aqui dentro da minha máquina, desta feita observando o mundo lá fora, o mundo pelo qual virei as costas, o abandonei para viver uma falsa realidade.
Será que sou agora um espírito? 
Nunca havia pensado que após a vida, continuaria sentindo o pulsar do meu coração, vejo o meu corpo como era antes, mas era incrível estar aqui me sentindo vivo e ao mesmo tempo me vendo do outro lado , deitado sobre aquele teclado, que tanto usei, que tanto tempo me absorveu, enquanto dava as costas ao mundo real.
Onde estavam as pessoas, os amigos, meus vizinhos? Pessoas que passaram pela minha calçada, pela janela da minha sala, e eu, de costas, caído sobre este teclado, deixei a vida esvaziar por si só.
Agora vejo tudo o que deixei de viver, deixei de sentir, pois estava aqui mesmo debruçado, desperdiçando a vida real, por uma vida virtual, fria, sem calor.

Daqui posso ver o meu antigo relógio na parede, redondo, com os ponteiros delicadamente desenhados, como se fossem setas apontando o passar do tempo a cada segundo, pulsando, num batimento rítmico tal qual uma pequena bomba cardíaca da vida. Uma fina moldura dourada delimitava o fundo branco, contrastado pelos números de 1 a 12, romanos, polarizados pelo eixo que girava, delicadamente, avisando aos incautos que o tempo esgota-se a cada segundo, sem parar.

No relógio, 6:00 horas da manhã. Os ponteiros estavam alinhados, apontando o norte e o sul. Via nas frestas da minha janela os raios de sol que penetravam, mostrando o dançar constantes das pequenas partículas de poeiras no ar. Ali, sim, um movimento: as partículas refletiam a luz do sol e brilhavam como estrelas em seu universo próprio, rodopiando como pirilampos que saudavam a chegada de um novo dia. 
O tempo avançara, nada acontecera com o meu corpo imóvel, o sol estava mais forte, os raios invadiam a minha sala, os pirilampos ficaram mais iluminados. Os reflexos de raios de luz no vidro do meu antigo relógio, batiam e reluziam no filete dourado que emoldurava o fundo branco, onde giravam os ponteiros pontiagudos.
Às 7:30 horas da manhã, o silêncio era profundo, nada poderia ouvir na rua. Nem o movimento, ou o frear dos carros naquela lombada que ficava bem em frente à minha janela. Apenas o ruído da máquina, daquele som giratório constante. Só o silêncio do outro lado do vidro, desta janela pelo qual observava o lado de lá, onde passei toda a minha vida!
De repente, percebi algum movimento na porta! Havia alguém do outro lado na espreita! Uma mão batia como se quisesse me chamar! Acordar-me talvez! Insiste! Bate! Era a Pat a minha empregada, não ouvia nada daqui, mas sentia que ela, em voz alta, chamara pelo meu nome!
Por um instante, Pat arregalou os olhos, adentrou a sala, chamou-me, tocou em meu ombro naquele corpo mórbido e frio e, ao perceber a realidade, espantou-se, entregando-se ao choro desesperado!
-Pat! Pat! Eu estou aqui, veja! Aqui! Dentro do monitor! Pat! Pat! - gritei com todas as minhas forças, socando o vidro com os punhos serrados! 
Pat não demonstrara nenhuma reação. Não me ouvira. Desesperada saíra correndo da sala, coitada da Pat! Em completa tristeza, aos prantos, batendo a porta. Que pena!... Tanto serviu-me, quantos vezes veio até aquela sala trazer meu café e perguntar-me se precisava de alguma coisa!
E, novamente, fiquei aqui, esperei, senti-me vivo, podia pensar, ver, enxergava tudo através da janela de vidro. Deste lado estava sozinho, as pessoas não me percebiam, o que seria do meu futuro a partir daquele momento? Tinha todo o tempo dentro desta máquina para descobrir! Quando iriam voltar?

Segue no 3º Capítulo...