https://mobirise.com/

Profunda Solidão


Pat ainda não voltara, nos ponteiros do relógio passaram-se 15 minutos. A sensação de impotência era terrível, nada poderia fazer além de esperar que algo acontecesse. Meu corpo, deitado sobre o teclado, aguardava uma providência.

Nunca soube ao certo o que pensar sobre a morte; era um assunto de que sempre me esquivara ou tratava-o como se fosse algo indiscutível. Ouvi dizer que o espírito poderia entrar em desespero, quando se deparasse com o fato da morte!

- Posso afirmar que estou confuso, com todas essas situações novas que aconteceram comigo. Hoje, porém, sinto o meu corpo aqui como se estivesse do lado de lá. 

Para mim nada mudou. Apenas vejo, através deste vidro, que meu corpo se foi, mas sinto-me ativo, vivo, vejo e percebo tudo à minha volta. Só não compreendo porque as pessoas não me ouvem!...A porta se abriu...! - murmurei esperançoso naquele momento!

Fiquei atento ao que poderia acontecer!

Algumas pessoas entraram com a PAT. Estavam pasmos; a Pat chorava sem parar, com as mãos serradas e punhos fechados contra a sua boca; minha vizinha Raquel, esposa do Carlos da padaria, em estado de choque, entrara junto com Pat. Com seus olhos lacrimejando, séria e pensativa, murmurou alguma coisa que não pude entender.

Raquel deu a volta em torno do meu corpo, como se procurasse a causa do ocorrido, sem me tocar, apenas olhava cabisbaixa, enquanto balançava a sua cabeça negativamente.

A porta abriu-se mais um pouco, vi dois homens desconhecidos. Entram e vão diretamente ao meu corpo. Carregavam com eles uma padiola dobrável, talvez de lona, enquanto se preparavam para recolher o meu corpo ali caído.

A proximidade deles com o monitor era muito grande, podia ver os rostos deles muito de perto, tomando posições para pegar-me!

De repente, de súbito, ocorreu-me então, aproveitar a situação e a proximidade para chamar a atenção! E então comecei a gritar:

-Hei! Eu estou aqui! Aqui! Hei! Estou aqui dentro! Olhem para cá! Socorro! Estou preso aqui dentro, olhem para cá!! Hei!    

Soquei o vidro com toda a minha força, gritei desesperadamente para que eles olhassem para mim, pois eu os via perfeitamente!

-Me tirem daqui! Hei ! Socorro! Olhem para cá! Eu estou aqui! Socorro! Socorro! Me tirem daqui! - gritei mais alto e desesperadamente!

Não me perceberam. Nenhuma menção fizeram que demonstrassem terem sentido a minha presença.

Ajeitaram o meu corpo na maca. Pat deu uns passos para o lado, Raquel saiu primeiro para dar espaço aos dois homens desconhecidos. 

Pat virou as costas para mim e ajeitou a porta para que os homens passassem. Ela, sorrateiramente, olhou por alguns segundos a cadeira que ficara levemente afastada da mesa, como se isso a incomodasse!

Veio até a mesa e ajeitou-a na escrivaninha e esta era mais uma chance de tentar mostrar a Pat que nada tinha acontecido comigo!
-Pat! Pat! Pat! Estou aqui! Veja! Aqui Pat! Estou vivo! Pat!....  
Esmurrei o vidro com toda a minha força, desesperadamente, mais uma vez! 
-Pat! Menina! Olha aqui! Eu estou te vendo! Pat! Socorro! Me tira daqui! Pat!... 
Ela não me ouvia! Foi em vão a minha tentativa!  
Seu rosto passara quase rente ao monitor, quando ela rapidamente olhou por sobre a mesa como se procurasse por algo, ou quisesse deixar as coisas mais em ordem. Pude ver manchas vermelhas envolvendo seu olhos e percebi a sua profunda tristeza e comoção!
Passei a mão no vidro, como se quisesse tocá-la, ela estava tão perto...e não percebeu!
-Oh! Pat! Como é que você não me vê aqui! Pat! Pat! Eu estou aqui! Olhe para cá! Pat! Pat! - gritei, batendo com a palma da mão no vidro! E nada! Nenhum gesto que demonstrasse que ela havia percebido algo estranho, apenas a tristeza e as lágrimas que corriam em sua face.
De repente, Pat se virou e saiu da sala, talvez alguém a tenha chamado! Fechou a porta atrás de si, abandonando a sala com certa pressa!

Naquele momento, uma angústia tomara conta de mim, não via mais o meu corpo, a cadeira estava vazia, não havia ninguém na sala, sentia-me levemente rouco de tanto gritar!

Nada adiantara, a vida lá fora seguia seu rumo, o relógio na parede já apontava 9:30 da manhã!

Uma profunda solidão até aquele momento ocupara a minha mente na esperança de que algo pudesse acontecer, mas cada vez mais tomava consciência de que minha vida ficara do outro lado da janela, enquanto me sentia preso dentro do monitor do meu próprio computador! 


Jamais poderia imaginar isso!
Não sabia nem o que pensar ou o que fazer! Mirava os ponteiros dos minutos passarem lá no meu relógio, sentia o meu corpo, como se fosse o mesmo, não havia diferença alguma, mas não percebia sede e nem fome, parecia que tudo estivesse só na minha mente, não conseguia entender! 
Minha respiração estava ofegante de emoção, as minhas mãos levemente suadas e ardidas de tanto esforço, tinha plena consciência da minha presença e do meu estado físico.
Porque as pessoas não me viam e não me ouviam? Até hoje não sei dizer! 
Não queria ficar ali sozinho, sempre tivera muito o que fazer e, muita gente com quem conversar. Estavam todos aqui na tela deste micro, e não os via mais!
A tristeza tomara conta de mim.....algo estava por acontecer! Quando eu veria alguém novamente?

Segue para o 4º Capítulo...