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Raios de Sol


A completa solidão fez companhia ao silêncio absoluto, rompido apenas pelo girar contínuo da ventoinha que refrigerava o disco rígido, aqui dentro. Esse som ecoa de forma atordoante, passei a minha vida ouvindo-o sem me importar; aliás, era a certeza de que estaria sempre ligado com o mundo virtual.

Nada acontecera lá fora, as pessoas se foram, meu corpo não estava mais lá, apenas sabia que o tempo passara através dos ponteiros reluzentes do relógio. Entrava naquele momento pela madrugada, a porta estivera imóvel durante todo o dia.

A escuridão tomara conta do ambiente, não podia ver absolutamente nada. O monitor havia desligado automaticamente. A sala estava com as luzes apagadas, eu me sentia profundamente só! Nenhum movimento...

Horas e horas da minha vida tinha passado diante da máquina, ali encontrava-me com amigos, trocava e-mails e fotos, quantas atividades! Arquivos, trabalhos, informações, estivera o tempo todo ocupado. E, naquele momento, apenas a escuridão e a total ausência de companhia. O tempo deveria estar preso em algum lugar, a sensação do escuro total era terrível.

Vagarosamente os pirilampos apareceram. Era o sinal dos primeiros raios da manhã, ainda poucos, mas que já traziam um grande alívio, pois um novo dia haveria de chegar!

O dia passara, somente o relógio havia mostrado cada minuto percorrido, sem movimento. Ninguém aparecera, fiquei alerta fitando aquela porta, nenhum sinal de vida.

Apenas ouvia aquele girar contínuo que, por momentos, estonteavam-me. Pude perceber como os raios de sol vagueiam pela sala, como se procurassem iluminar cada canto.

Estive muitos dias ensolarados lá, mas nunca havia percebido o passear dos raios e nem assistido os pirilampos dançarem o dia todo.

Mais um longo dia atravessado pela trajetória da luz do sol, não tirei a vista daquela porta, a angústia havia chegado ao ponto máximo. Confesso que chorei amargurado, sentindo uma solidão profunda. Não tinha para onde ir, ou pelo menos não sabia o que fazer; estava preso atrás deste vidro que me separava da vida real.
Novamente chegou a noite e com ela o breu, o relógio girava hora após hora, sem se importar com o que acontecera a sua volta, apenas girava, fosse dia ou noite. Momentos de reflexão profunda diante do silêncio. Por vezes apenas meu soluço e o próprio choro me faziam companhia. Lágrimas escorriam lavando a minha alma, e lá fora a total ausência de vida.
Os raios de sol despontavam, rasgando a escuridão; os pirilampos apressaram-se em movimentos alegres, refletindo a luz do sol.
Eram 10:05 da manhã, a porta foi aberta e vi, com grande alegria, a Pat entrar. Uma emoção imensa tomou conta de mim, aproximei-me do vidro para ver o que iria acontecer. Mesmo sabendo que ela não me ouvia, em voz baixa murmurei:
-Pat! Que bom ver você!
Ela trazia alguns panos e produtos de limpeza, também uma caixa de papelão e algumas sacolas plásticas. Primeiramente, colocou os objetos num canto e olhou demoradamente para a cadeira em que eu havia estado.
De repente, foi até a janela e a abriu totalmente. Encostou as cortinas nos cantos, o sol invadiu, clareando tudo. Começou a limpar as prateleiras, os meus livros e toda a sala.
Vez por outra, ela sumia do meu campo de visão, mas rapidamente voltava em movimentos rápidos. Desejei, por um momento, que ela nunca mais fosse embora, pois sua presença encheu novamente meu coração de alegria, me pegara-me sorrindo sozinho, acompanhando cada movimento seu!
De repente, Pat tomou a caixa de papelão para si e pôs sobre a mesa, abriu a minha gaveta e retirou alguns pertences pessoais, coisas que guardava sem saber o porquê. Passou um pano em toda a mesa, limpou o teclado delicadamente, a cadeira. Umedecia vez por outra aquele pano com um produto líquido, enquanto eu, emocionado, não conseguia tirar os olhos dela!

Não tive mais vontade de gritar. Senti que ela não percebera a minha presença. Emocionei-me quando ela limpou o vidro do monitor. Aquela era a minha janela para a vida!

Não queria fazer nada que mudasse aquele momento de alegria e prazer para mim, estivera longas horas na solidão.
Algo chamara a atenção de Pat! Um ruído, talvez?

Ela olhou rapidamente para a porta e disse algo em voz alta; porém não pude perceber o que era!

Alguns segundos após, Raquel aparecera na porta trazendo um recado para Pat... Era um número de telefone. Conversaram por um momento, Raquel deu uma vista pela sala, fitando o monitor. Por um momento pensei que ela estivesse me vendo, mas desviou o olhar sem me perceber.


Em seguida, Raquel se despediu e saiu da sala. Pat imediatamente sentou na cadeira e pegou o telefone, falou alguns minutos com alguém, enquanto brincava pensativa com o papel sobre a mesa.
A minha visão era total. Pude vê-la com riqueza de detalhes, ela estava bem diante de mim. Toquei no vidro, nada falei, apenas pensei em como tudo aquilo poderia ter acontecido. Minha vida lá fora havia terminado, eu me sentia vivo; porém, do outro lado deste vidro que me separava do mundo. 
Quem poderia ser? A curiosidade tomou conta de mim, mas não pude interpretar aqueles gestos e alguma coisa estaria por acontecer. Seu semblante era triste, pois deveria estar ainda sentindo a minha falta e comovida com o acontecido.
Pat terminou a ligação, dobrou o bilhete e guardou na gaveta; recolheu a caixa e os outros objetos, fechou a cortina, a janela e, sem olhar para o monitor, saiu da sala. 
Mais uma vez, a sensação de estar só, abateu-me. Agora, pelo menos, eu teria muita coisa em que pensar: o que poderia estar acontecendo lá fora?
De quem era o número de telefone que Raquel havia trazido? Onde estavam as pessoas que eu conhecia? Meus pensamentos vagavam sem parar, buscando respostas enquanto o dia dava lugar à noite novamente. Já entrara pela madrugada e eu ainda estava entretido com mil possibilidades de acontecimentos no novo dia que estava por vir!

Segue no 5º Capítulo...