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O e-mail


Posso afirmar que, se não fosse o relógio, jamais teria noção de que o tempo passara; os pirilampos anunciavam sempre a presença de um novo alvorecer. Em minha percepção, sentia-me como era antes, todas as emoções fluíam no corpo da mesma forma. Saudade, medo, alegria, angústia, solidão.

Não posso compreender até agora porque não passava o tempo, nem tão pouco a total ausência de fome e sede. Não me ocorreu, em nenhum momento, a necessidade de me alimentar. Apenas os meus pensamentos pulsavam constantemente em várias direções. A expectativa de um acontecimento novo, o movimentar daquela porta era onde depositava toda a minha energia. Minhas esperanças estavam naquela sala!

Naquele momento, apareceram, pela 7a. vez, os pirilampos. Sete dias e Pat não voltara, ninguém adentrara aquela porta. Passei momentos de profunda reflexão sobre a minha vida e tudo que fizera e deixara de fazer. Meus pensamentos voavam de um lado para o outro, faltou-me coragem para voltar à escuridão de onde viera, antes de ter descoberto esta janela, sabia que não encontraria nada lá. Tudo o que me interessava estaria atrás daquela porta!      
Meus pensamentos foram interrompidos quando a porta abriu-se de repente e Pat novamente aparecera!
-Graças a Deus! Pat! Você voltou!
Um sorriso de alívio e uma sensação de grande conforto tomou conta de mim!
Mais uma vez, ela cumpriu todo o ritual de limpeza da minha antiga sala. Acompanhei cada passo como se quisesse curtir aquele momento, o sol invadiu por horas, através da janela totalmente aberta. A minha sensação e a alegria eram imensas, senti o pulsar da vida novamente!
Ela aproximara-se do monitor no momento de limpar a mesa, eu a via como se estivera diante de uma tela de cinema. Pat estava ali, onde trabalhara por horas! Passei a mão no vidro, procurando tocá-la! Sem hesitar, tentei me comunicar.
-Quem sabe agora? - pensei em voz baixa comigo mesmo!
Pat estava muito melhor, seu semblante era outro! Depois de tanto refletir eu também já me sentia mais consciente. Então, comecei a gritar em tom alto, mas sem desespero:
- Pat! Você pode me ouvir? Pat, eu estou aqui! Estou te vendo! Hei! Pat! Pat!
Gritei mais alto! Ela não fez nenhum sinal que demonstrasse ter percebido o que estava acontecendo dentro do monitor, onde eu estava.
-Pat, menina! Não é possível que você não me veja! Eu estou aqui!  
Outras tentativas fiz, mas Pat não me notara!
Conformei-me mesmo sem entender! Ela não me percebia, e eu a via ali! 
Pat acabou seu trabalho, deixou tudo em perfeita ordem como sempre fazia, puxou a cadeira da escrivaninha e sentou-se diante do monitor. Aquele ato para mim foi uma marco. No momento em que ela tocou o mouse, uma energia de vida tomou conta de mim. Algo com certeza, iria acontecer finalmente! Pat estava abrindo um programa de e-mail no computador, e foi naquele momento que fiz a grande descoberta!
Como me senti retribuído em ter incentivado a Pat a concluir seu cursinho de informática!
Eu sempre afirmava para ela: Pat! A informática pode te trazer vida nova! Que palavras! A vida nova estava despontando para mim!
Pat levantou o teclado para ter acesso às minhas senhas. Ali eu tinha um papelzinho colado com alguns lembretes. Ela abriu o meu e-mail e, naquele instante, tive uma surpresa espantosa, um fato que iria mudar a minha vida! Tudo seria diferente a partir daquele momento!
Então, começou a ler os e-mails. Eram dezenas de amigos e amigas com correspondências diárias, trocando mensagens, histórias, piadas, brincadeiras, assuntos sem importância, algo interessante. Na verdade, tinha de tudo, era um circuito contínuo de vai e vem, o que tomava o meu tempo e me mantinha absorvido e entretido por incontáveis horas diante daquele teclado. 
Quando Pat abriu o primeiro e-mail, tive a total consciência do que estava escrito lá, descobri que meu corpo estava diretamente ligado à maquina, e eu poderia ler as correspondências e interagir com o equipamento. 
Tudo se passava na minha mente, bastava direcionar o pensamento e estaria diante de cada palavra. Não me preocupei em entender o que estava acontecendo, tamanha era a minha emoção de mais uma vez estar diante da minha caixa postal, lendo os e-mails que meus amigos haviam me enviado neste período, pois não pude mais responder-lhes.
A caixa de entrada de mensagens estava cheia! Tinha muito para ler. 
Pat começou então a digitar um e-mail, abriu uma nova correspondência e começou a escrever:
"Bom dia, aqui quem vos escreve é a Pat. Sou funcionária do amigo de vocês que mantinha por amizade a troca de e-mails, com o codinome de KAPARRA. Sinto informar que há uns 10 dias passados o amigo de vocês teve uma parada cardíaca súbita e veio a falecer. Estou aguardando apenas seu irmão chegar, pois mora em outro país. A família do KAPARRA decidiu vender este apartamento e também tudo o que há dentro. Apenas senti a necessidade de comunicar-lhes para que não pensem que o KAPARRA simplesmente não responde mais os e-mails.
Atenciosamente, Pat"
-Não! Pat! Pat! Eu estou aqui, não escreva isso! Pat! Como? Vender o apartamento com tudo o que tinha dentro? Não, Pat! Pat! Olhe para cá! Não escreva isso!
Entrei em desespero, era o fim de toda a minha esperança. Meus amigos, minha família, minha casa, tudo seria tirado de mim!

Eu estava lendo o e-mail no momento em que ela digitava. Era como se tudo acontecesse dentro da minha cabeça, dentro do meu corpo, tinha perfeita visão de tudo. Eu estava interagindo com a máquina, a eletricidade corria no meu corpo e todas as informações passavam pela minha consciência.

Não posso explicar como tudo isso é possível, ainda estou confuso!

Pat juntou os endereços, os e-mails de todos os meus amigos da internet, todas as pessoas que eu conhecia! Então, inseriu no campo "enviar para todos". Naquele momento entrei em desespero mais uma vez!

-Pat! Pelo amor de Deus! Não faça isso, eu estou aqui. Estou vivo, Pat! Não mande este e-mail! Pat! Pat!


Ela não fazia nenhum sinal de que estivesse me vendo ou ouvindo. Um sentimento de desespero e solidão me explodiam o coração de dor! Senti, naquele momento, como se realmente fosse um "morto" para todos os meus amigos, pois, até então uma chama de esperança era mantida acessa por mim naquela sala. Como poderiam vender meu apartamento? Desligar-me de tudo o que era a minha vida? O que seria de mim? Não veria mais a minha janela ? A Pat? Tudo seria uma escuridão à minha volta?
Entrei em pânico enquanto assistia à Pat, sem a menor preocupação com o meu futuro, enviar aquele e-mail.
Cumprindo um ritual simples de reler a carta e corrigir algum eventual erro, ela passou os olhos sobre as palavras, e eu pude ver suas pupilas castanhas, atentas, caminhando por entre as linhas do e-mail que anunciava minha morte. Num gesto simples e rápido, clicou em enviar.

Segue no 6º Capítulo...