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Profunda
Solidão
3o. Capítulo
Pat ainda não voltara, nos ponteiros do relógio passaram-se 15
minutos. A sensação de impotência era
terrível, nada poderia fazer além de esperar que algo acontecesse. Meu corpo, deitado sobre o teclado, aguardava uma providência.
Nunca soube ao certo o que pensar sobre a morte; era um assunto de que
sempre me esquivara ou tratava-o como se fosse algo indiscutível. Ouvi
dizer que o espírito poderia entrar em desespero, quando se deparasse com o
fato da morte!
-
Posso afirmar que estou confuso, com
todas essas situações novas que aconteceram comigo. Hoje, porém,
sinto o meu corpo aqui como se estivesse do lado de lá.
Para mim nada mudou. Apenas vejo, através deste vidro, que meu corpo se foi, mas
sinto-me ativo, vivo, vejo e percebo tudo à minha volta. Só não
compreendo porque as pessoas não me ouvem!...A porta se abriu...!
- murmurei esperançoso naquele momento!
Fiquei atento ao que poderia acontecer!
Algumas pessoas entraram com a PAT. Estavam pasmos; a Pat chorava sem
parar, com as mãos serradas e punhos fechados contra a sua boca; minha
vizinha Raquel, esposa do Carlos da padaria, em estado de choque,
entrara junto com Pat. Com seus olhos lacrimejando, séria e
pensativa, murmurou alguma coisa que não pude entender.
Raquel deu a volta em torno do meu corpo, como se procurasse a causa
do ocorrido, sem me tocar, apenas olhava cabisbaixa, enquanto
balançava a sua cabeça negativamente.
A porta abriu-se mais um pouco, vi dois homens desconhecidos. Entram e
vão diretamente ao meu corpo. Carregavam com eles uma
padiola dobrável, talvez de lona, enquanto se preparavam para recolher
o meu corpo ali caído.
A proximidade deles com o monitor era muito grande, podia ver os rostos
deles muito de perto, tomando posições para pegar-me!
De repente, de súbito, ocorreu-me então, aproveitar a situação e a
proximidade para chamar a atenção! E então comecei a gritar:
-Hei! Eu estou aqui! Aqui! Hei! Estou aqui dentro! Olhem para
cá! Socorro! Estou preso aqui dentro, olhem para cá!! Hei!
Soquei o vidro com toda a minha força, gritei desesperadamente para
que eles olhassem para mim, pois eu os via perfeitamente!
-Me tirem daqui! Hei ! Socorro! Olhem para cá! Eu estou aqui!
Socorro! Socorro! Me tirem daqui! - gritei mais alto e
desesperadamente!

Não me perceberam. Nenhuma menção fizeram que demonstrassem terem
sentido a minha presença. Ajeitaram o meu corpo na maca. Pat deu
uns passos para o lado, Raquel saiu primeiro para dar espaço aos dois
homens desconhecidos.
Pat virou as costas para mim e ajeitou a porta para que os homens
passassem. Ela, sorrateiramente, olhou por alguns segundos a cadeira que
ficara levemente afastada da mesa, como se isso a incomodasse!
Veio até a mesa e ajeitou-a na escrivaninha e esta era mais uma
chance de tentar mostrar a Pat que nada tinha acontecido comigo!
-Pat! Pat! Pat! Estou aqui! Veja! Aqui Pat! Estou vivo!
Pat!....
Esmurrei o vidro com toda a minha força, desesperadamente, mais uma vez!
-Pat! Menina! Olha aqui! Eu estou te vendo! Pat! Socorro! Me tira
daqui! Pat!...
Ela não me ouvia! Foi em vão a minha tentativa!
Seu rosto passara quase rente ao monitor, quando ela rapidamente olhou
por sobre a mesa como se procurasse por algo, ou quisesse deixar as
coisas mais em ordem. Pude ver manchas vermelhas envolvendo seu olhos
e percebi a sua profunda tristeza e comoção!
Passei a mão no vidro, como se quisesse tocá-la, ela estava tão
perto...e não percebeu!
-Oh! Pat! Como é que você não me vê aqui! Pat! Pat! Eu estou aqui!
Olhe para cá! Pat! Pat! - gritei,
batendo com a palma da mão no vidro! E nada! Nenhum gesto que
demonstrasse que ela havia percebido algo estranho, apenas a tristeza
e as lágrimas que corriam em sua face.
De repente, Pat se virou e saiu da sala, talvez alguém a tenha
chamado! Fechou a porta atrás de si, abandonando a sala com certa
pressa!

Naquele momento, uma angústia tomara conta de mim, não via mais o meu
corpo, a cadeira estava vazia, não havia ninguém na sala, sentia-me
levemente rouco de tanto gritar! Nada adiantara, a vida lá fora
seguia seu rumo, o relógio na parede já apontava 9:30 da manhã!
Uma profunda solidão até aquele momento ocupara a minha mente na
esperança de que algo pudesse acontecer, mas cada vez mais tomava
consciência de que minha vida ficara do outro lado da janela,
enquanto me sentia preso dentro do monitor do meu próprio computador!
Jamais poderia imaginar isso!
Não sabia nem o que pensar ou o que fazer! Mirava os ponteiros dos
minutos passarem lá no meu relógio, sentia o meu corpo, como se
fosse o mesmo, não havia diferença alguma, mas não percebia
sede e nem fome, parecia que tudo estivesse só na minha mente, não conseguia
entender!
Minha respiração estava ofegante de emoção, as minhas mãos
levemente suadas e ardidas de tanto esforço, tinha plena consciência
da minha presença e do meu estado físico.
Porque as pessoas não me viam e não me ouviam? Até hoje não
sei dizer!
Não queria ficar ali sozinho, sempre tivera muito o que fazer e, muita
gente com quem conversar. Estavam todos aqui na tela deste micro, e não
os via mais!
A tristeza tomara conta de mim.....algo estava por
acontecer! Quando eu veria alguém novamente?
Segue para o 4º Capítulo...
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