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Raios de Sol
4o. Capítulo
A completa
solidão fez companhia ao silêncio absoluto, rompido apenas pelo girar
contínuo da ventoinha que refrigerava o disco rígido, aqui dentro. Esse som ecoa de forma atordoante, passei a minha vida ouvindo-o sem me
importar; aliás, era a certeza de que estaria sempre ligado com o mundo
virtual.
Nada
acontecera lá fora, as pessoas se foram, meu corpo não estava mais
lá, apenas sabia que o tempo passara através dos ponteiros reluzentes
do relógio. Entrava naquele momento pela madrugada, a porta
estivera imóvel durante todo o dia.
A escuridão
tomara conta do ambiente, não podia ver absolutamente nada. O monitor
havia desligado automaticamente. A sala estava com as luzes apagadas, eu
me sentia profundamente só! Nenhum movimento...
Horas e horas
da minha vida tinha passado diante da máquina, ali encontrava-me com
amigos, trocava e-mails e fotos, quantas atividades! Arquivos,
trabalhos, informações, estivera o tempo todo ocupado. E, naquele
momento, apenas a escuridão e a total ausência de companhia. O tempo
deveria estar preso em algum lugar, a sensação do escuro total era terrível.
Vagarosamente
os pirilampos apareceram. Era o sinal dos primeiros raios da
manhã, ainda poucos, mas que já traziam um grande alívio, pois um novo
dia haveria de chegar!

O dia passara,
somente o relógio havia mostrado cada minuto percorrido, sem movimento.
Ninguém aparecera, fiquei alerta fitando aquela porta,
nenhum sinal de vida.
Apenas ouvia
aquele girar contínuo que, por momentos, estonteavam-me. Pude perceber como os raios de sol vagueiam pela sala, como se
procurassem iluminar cada canto. Estive muitos dias ensolarados lá, mas
nunca havia percebido o passear dos raios e nem assistido os pirilampos
dançarem o dia todo.
Mais um longo
dia atravessado pela trajetória da luz do sol, não tirei a vista
daquela porta, a angústia havia chegado
ao ponto máximo. Confesso que chorei amargurado, sentindo uma solidão
profunda. Não tinha para onde ir, ou pelo menos não sabia o que fazer;
estava preso atrás deste vidro que me separava da vida real.
Novamente
chegou a noite e com ela o breu, o relógio
girava hora após hora, sem se importar com o que acontecera a sua
volta, apenas girava, fosse dia ou noite. Momentos de reflexão profunda
diante do silêncio. Por vezes apenas meu soluço e o
próprio choro me faziam companhia. Lágrimas escorriam lavando a minha
alma, e lá fora a total ausência de vida.
Os raios de
sol despontavam, rasgando a escuridão; os pirilampos
apressaram-se em movimentos alegres, refletindo a luz do sol.
Eram 10:05 da
manhã, a porta foi aberta e vi, com grande alegria, a Pat entrar. Uma
emoção imensa tomou conta de mim, aproximei-me do vidro para ver o que
iria acontecer. Mesmo sabendo que ela não me ouvia, em voz baixa murmurei:
-Pat! Que bom ver você!
Ela trazia
alguns panos e produtos de
limpeza, também uma caixa de papelão e algumas sacolas plásticas. Primeiramente,
colocou os objetos num canto e olhou demoradamente para a cadeira em que
eu havia estado.
De repente, foi
até a janela e a abriu totalmente. Encostou as cortinas nos cantos, o
sol invadiu, clareando tudo. Começou a limpar as prateleiras, os
meus livros e toda a sala.
Vez por outra,
ela sumia do meu campo de visão, mas rapidamente voltava em movimentos
rápidos. Desejei, por um momento, que ela nunca mais fosse embora, pois
sua presença encheu novamente meu coração de alegria, me pegara-me sorrindo sozinho, acompanhando cada
movimento seu!
De repente,
Pat tomou a caixa de papelão para si e pôs sobre a mesa, abriu a minha gaveta
e retirou alguns pertences pessoais, coisas que guardava sem saber o
porquê. Passou um pano em toda a mesa, limpou o teclado delicadamente, a
cadeira. Umedecia vez por outra aquele pano com um produto líquido, enquanto eu,
emocionado, não conseguia tirar os olhos dela!

Não tive mais
vontade de gritar. Senti que ela não percebera a minha presença. Emocionei-me quando ela limpou o vidro do
monitor. Aquela era a minha
janela para a vida! Não queria fazer nada que mudasse aquele
momento de alegria e prazer para mim, estivera longas horas na solidão.
Algo chamara a
atenção de Pat! Um ruído, talvez? Ela olhou rapidamente para a porta e
disse algo em voz alta; porém não pude perceber o que era!
Alguns
segundos após, Raquel aparecera na porta trazendo um recado para Pat...
Era um número de telefone. Conversaram por um momento, Raquel deu uma vista
pela sala, fitando o monitor. Por um momento pensei que ela estivesse me
vendo, mas desviou o olhar sem me perceber.
Em seguida,
Raquel se despediu e saiu da sala. Pat imediatamente sentou na cadeira e
pegou o telefone, falou alguns minutos com alguém, enquanto brincava
pensativa com o papel sobre a mesa.
A minha visão
era total. Pude vê-la com riqueza de detalhes, ela estava bem diante de
mim. Toquei no vidro, nada falei, apenas pensei em como tudo aquilo poderia ter
acontecido. Minha vida lá fora
havia terminado, eu me sentia vivo; porém, do outro lado deste vidro que
me separava do mundo.
Quem poderia
ser? A curiosidade tomou conta de mim, mas não pude interpretar aqueles
gestos e alguma coisa estaria por acontecer. Seu semblante era triste,
pois deveria estar ainda sentindo a minha falta e comovida com o
acontecido.
Pat terminou
a ligação, dobrou o bilhete e guardou na gaveta; recolheu a caixa e os
outros objetos,
fechou a cortina, a janela e, sem olhar para o monitor, saiu da sala.
Mais uma vez, a
sensação de estar só, abateu-me. Agora, pelo menos,
eu teria muita
coisa em que pensar: o que poderia estar acontecendo lá fora?
De quem era o
número de telefone que Raquel havia trazido? Onde estavam as pessoas
que eu conhecia? Meus pensamentos vagavam sem parar, buscando respostas
enquanto o dia dava lugar à
noite novamente. Já entrara
pela madrugada e
eu ainda estava entretido com mil possibilidades de acontecimentos no
novo dia que estava por vir!
Segue no 5º Capítulo...
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DE 14 DE MAIO DE 1996 - Proibida a
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